Sobre

Reunindo uma série de textos escritos por mim, Janaína Sícari, Palavras de Uma Menina vai muito além de um blog: é o apêndice de minha alma de escritora. Amadores ou não, esses textos refletem quem sou e o que penso.

SOBRE O CAOS E ALGO NOVO – A MUDANÇA ESPERA QUE SE MUDE

Inspiro ares parados, atmosfera confortada, quarto fechado de mim mesma. Minhas paredes estão cheias de bolores – nem a umidade faz bem a esse ambiente em que me tranquei. No entanto, esses ares não são pesados. De um tempo para cá – desde que eu comecei a nota-los – eles têm se tornado cada vez mais leves. Talvez que perceber que algo está errado seja o primeiro passo. E está. Há algo por aqui de muito errado. Não é certo sentir o ar tão pesado nas costas e tão tóxico aos pulmões. Não é certo permitir dentro de mim tantos bolores e poeira. Mas, agora, é como se tudo isso flutuasse numa dança desconexa.
Caos. Caos e o sentimento de emergência da mudança. Ah, como é necessário que se mude! Bagunçar a bagunça da qual se é feito, com a qual já se está tão acostumado que até parece o estado normal das coisas, para então ajustá-la. Sim, sinto latente a mudança. Ela está sorrindo para mim quase que assustadoramente, mas eu não tenho mais medo: encaro-a nos olhos insanos e sorrio de volta, lançando o desafio. Ela urra e chacoalha as mãos cheias de unhas compridas, mas depois abaixa a cabeça à minha vontade.
A mudança está aí, esperando que se mude. De olhos baixos, agora que já não a temo. Suave, agora que a vejo como necessária.
Também a bagunça foi necessária ao seu tempo – como poderia eu entender que a ordem era ordeira se não houvesse aquela dorzinha no peito quando eu inspirava aqueles ares? Foi bom, muito bom, ver as heras venenosas subirem altas dentro do meu espaço, pois agora as eras suaves serão bem-vindas e abençoadas da maneira que se deve.
Basta apenas arrancar pela raiz os maus costumes, os pensamentos que me colocam para baixo, as atitudes que não me servem mais. Para a mudança, agora que dela não tenho mais medo, basta apenas que se mude. Ela sorri, agora, complacente.

Com amor, ponho em execução meu plano de reforma. Com amor, esfrego as paredes e tiro o lodo de mim. Com amor, arranco as heras. Com amor, abro a janela – para ver o dia lindo lá fora, para ver a vida linda aqui dentro, para inspirar um ar inspirador. Com amor, deixo a porta aberta para o amor. Com amor, sorrio à mudança. Com amor, amo a mim. 

O grito da América – sobre como os portugueses não conquistaram o coração de uma mãe

Clara Nunes canta sobre um soluçar de dor que, segundo ela, ninguém ouviu. Eu não estava lá, mas o ouço muito bem até hoje. Seus ecos arrepiam-me os pelos do braço e insinuam lágrimas nos olhos. E tanto faz esse meu sentimento, não devo ser eu o foco das minhas palavras. O foco é o soluçar.
Antes fosse apenas soluçar, eu ouço mesmo é um grito. Um desespero, uma dor tamanha que rasga a entranha daquele que sente.
Eu ouço uma mãe a gritar pelo filho. E eu quase vejo o desespero de seus olhos negros bem abertos. E eu quase sinto a mão que rasgou seu coração tentando rasgar a minha alma. Mas, não, o foco não é o que eu sinto. O foco é o coração dessa mãe – e o canto feroz da perda.
Feroz, selvagem. Existe mesmo o conceito de selvageria quando se trata de amor, de amar? Não seria todo amor meio selvagem e toda perda não despertaria essa ferocidade, essa feracidade, esse grito desolado? Não, não. Os civilizados amam com mais graça – e aceitam a perda com mais desdém. Quisera essa mulher que fosse apenas perda: ela conhecia a morte e sabia que ela aconteceria.
Mas ela não conhecia o homem branco. Ela não conhecia a arma de fogo. Ela não conhecia isso de ser cruel só por ouro. Ela vivia em um sistema de vida tão mais brando, e que tão melhor ao seu coração se adaptava... Esse sistema mudou. Foi invadido. Mas como invadir o coração de uma mãe?
Eles tentaram quebrar seus ídolos. Eles tentaram se fazer passar por deuses – deuses que traziam a mensagem de um Deus estranho, que eles não entendiam muito bem. Eles tentaram despedaçar sua própria psique e seu jeito de ver o mundo. Eles vinham de outro mundo? Ou de outra terra? Outra terra? E por que é que eles descobriram aquilo lá, se essa mãe já vivia lá há tanto tempo? Se seus bisavós tinham bisavós que tinham bisavós que já sabiam que aquele chão existia?
Eles quebraram seus ídolos.
Agora tentavam quebrar seu coração.
Alienar sua liberdade.
Essa mãe não sabia o que era liberdade porque nunca teve oportunidade de conhecer qualquer um de seus antônimos. A liberdade lhe era tão natural que sobre ela não precisava falar, não precisava pensar, não precisava nem saber que ela existia. Ela era livre, exatamente por não entender nada sobre tal conceito. (Nós que somos cheios de amarras é que temos a necessidade de falar o tempo todo sobre essa tal liberdade).
Quando tentaram sujeita-la, ela soube o que era a liberdade, mesmo sem colocar isso em palavras. Como todo o resto que fugia à sua psique, ela sabia que algo estava errado, diferente. Ela sabia que tinha que batalhar por algo.
Ela resistiu. Seus irmãos resistiram. Seus primos resistiram. Seus filhos resistiram.
Por que se submeteriam, afinal de contas? Isso não fazia parte de seu sistema de crenças.
Embora sua inteligência não conseguisse acompanhar tudo o que lhe acontecia, – afinal, seu mundo era outro, era anterior à essa “descoberta” – pôde sentir, em seu mais profundo, a crueldade. Eles queriam escraviza-la, prender sua alma em gaiolas, como faziam aos pássaros. Ela não se rendeu. Eles lhe mataram os filhos.
Em sua frente. Para que visse e se sujeitasse.
Mas ela apenas gritou.
Você pode ouvir seu grito?
Pode imaginar sua dor?
Hoje, um dia depois da comemoração hipócrita feita por brancos que ignoram o que ainda sofrem os poucos que sobreviveram ao genocídio – ou tapam os olhos para tal realidade, porque pensar na dor alheia continua não sendo muito lucrativo –, eu ouço esse grito e tento imaginar sua dor. Apenas tento, porque não sou mãe e nunca conseguiria entrar por definitivo na alma de um nativo e em sua mente, que se projetava de forma tão diferente, por viver de modo tão diferente. Tentando, percebo que o grito dessa mãe ecoa – e não apenas no que restou dessa gente. Ecoa porque a ganância continua a matar crianças sem piedade. Ecoa porque o mundo civilizado ainda não conseguiu abandonar a barbárie. Ecoa, ecoa.
Eu venho, com essas palavras, pedir compaixão – não importa por quem.
Escrevendo, venho fazer-lhes um apelo: que amem. E é agora um sublime sussurrar das memórias dessa mãe que me diz isso: amem, amem, amem!


Alguns quilômetros em palavras

Quero correr do que crio, fugir da energia que emano.
Quero distancia desses ares malditos que eu mesma expiro,
pois que quero inspirar uma aura diferente.

Quero criar paz e quero emanar alegria;
quero que as pessoas sorriam ao ver meu semblante.
Quero um querer que já pude e ainda posso,
mas por hora não está ao meu alcance.

Caminho lentamente,
mas a cada passo me aproximo
e o fora de alcance parece quase tocável.
Tocarei o meu querer com o impulso de caráter
que também o trouxe.
A cada palavra, um passo;
a cada subjetividade que explica a peculiaridade do meu sentir,
um quilômetro.

Avanço. Sim, avanço!
Avanço em direção a mim mesma
e com minhas próprias forças.
Faço das palavras minha magia e terapia
– são elas minhas ferramentas, meu veículo nesse avanço.

Assim, encontro em mim o que precisava.
Sano eu mesma minha própria solidão.
Eu me basto. Sim, desde já.
No caminho já me basto, pois que caminho.

Nunca pensei que posso ser feliz?
Tenho certeza.
E essa certeza me faz ser feliz desde já.

Só com esse texto, percorri um quilômetro e andei alguns passos.

SOBRE A COMEMORAÇÃO QUE DEVERIA SER LUTA – E PARA ALGUMAS REALMENTE O É

Nesse 8 de março não me dê rosas, dê-me respeito.

Obrigada, mas eu não quero seu presente, moço. E nem agradeço sua gentileza. Quero outro tipo de presente, quero uma gentileza que dure o ano inteiro. Quero que as ruas, que são hoje cenário colorido de rosas e sortido de sorrisos e palavras bonitas, sejam seguras para mim. Quero poder andar por aí à noite sem temer o homem que vem andando a passos largos em minha direção, sem receber olhares indiscretos que me deixam embaraçada, sem ter que ouvir cantadas que mais parecem vômitos de insulto. Quero poder por a roupa que bem entender, sem ter que ouvir “essa é vagabunda”, “ela mereceu” ou “quer provocar”. Quero que você, moço, entenda que nem tudo na vida de uma mulher tem a ver com o seu pênis (ele na verdade interfere muito pouco naquilo que faço). Eu não uso shorts para mostrar as penas, saia ou calça branca pra deixar ver a calcinha. Eu não passo maquiagem para aprovação estética ou para chamar atenção, é só que eu me sinto bem assim. E eu quero, moço, que minha irmã de luta que não usa maquiagem não tenha que ouvir que é falta de vaidade. Eu quero que parem de chamar cabelo curto de Joãozinho, porque a Joana também fica linda assim. Eu quero que os condicionadores parem de falar que vão domar meu cabelo rebelde, eu gosto dele bem assim. Eu quero que parem de me julgar por minha sexualidade: nem puta, nem santa.
Moço, eu não sou muito magra. Moço, ela não é muito gorda. Moço, mulher tem estria e celulite sim. E, moço, nosso corpo não foi feito para sua aprovação. Nosso corpo foi feito para nós o amarmos, independente de como ele é. Sem padrões. Ah, e eu sei que pode parecer chocante, mas ele é nosso, viu? Ele não é do nosso marido, e nosso marido não pode nos agredir. Aliás, homem nenhum pode! O corpo é meu! Não é do estado, para ele decidir se eu posso abortar ou não. Não é do patriarcado, para vocês decidirem que eu sou frágil e fui feita pra ser dona de cabeça. Nós somos plurais, moço. Nós podemos decidir por nós mesmas. Nós queremos voz. Por enquanto sussurramos por nossos direitos, mas um dia gritaremos!
Moço, eu estou cansada de ver meu corpo objetificado. Vendido como cerveja. Eu estou cansada da mídia usar minhas curvas para atrair consumidores. E estou cansada dos padrões que ela estabelece. Pra ser bonita eu não tenho que ser magra e branca. Moço, esse padrão de beleza é massacrante! E isso também é violência.
Moço, atrás de um grande homem não há uma grande mulher. Nós estamos cansadas de ficar atrás. E esse dia, para mim, serve pra lembrar isso! Não quero que as grandes marcas que me vêem como produto venham me prestar homenagens (que na verdade são insultos)! Não quero que um homem me diga na rua que sem nós ele não seria nada. Não quero que me digam que sou carinhosa, delicada, que nasci pra ser mãe. As mulheres são plurais, moço.

Que Ana Carolina me desculpe, mas nem toda mulher gosta de rosas. Eu gosto de respeito.

As Flores de Lisbeth

O pequeno apartamento de Lisbeth vivia adornado de flores. Elas vinham das mais variadas floriculturas da cidade, com as mais variadas frases penduradas, nos mais variados cartões. Lisbeth raramente lia os cartões - pedia para que o entregador levasse-os de volta. Ela sabia que, como sempre, a letra seria feminina e caprichada e a frase seria clichê. As flores, que geralmente... eram rosas vermelhas, ela colocava aqui e ali, por aí... Elas enchiam a sala, a cozinha, o quarto, a janela e a cabeceira da cama de perfumes unos. Era agradável viver ali. As flores eram bonitas, e bem serviam a Lisbeth.
Eram, todavia, vulgares.
A moça havia se acostumado com seu perfume, sua beleza. Eram ordinários para ela.
Assim como era uma rotina entregar o cartão sem dar a mínima atenção a ele.
Não que Lisbeth desgostasse das rosas - pelo contrário: adorava-as. Mas elas perderam o encanto, pois deixaram de ter sentimento. Os homens queriam conquistá-la pelas rosas, e não pelo que eram de verdade. A essência que importava à Lisbeth, no fim das contas, não era o perfume inebriante das flores, mas sim o espírito encantador de um verdadeiro cavalheiro.
Ela sabia: rosas não a conquistariam. Ela se orgulhava disso.
Mas as rosas nem sempre vêm com um cartão escrito por uma letra qualquer e trazendo um poema qualquer...
Era primavera - o mundo florescia. E foi então que floresceu, também, o coração de Lisbeth. A campainha tocou mais cedo que o comum. "O entregador deve ter caído da cama com os pássaros", ela pensou. Mas, ao abrir a porta de pijama e com o cabelo bagunçado, não teve que sentir vergonha de sua aparência, nem assinar uma listinha de entrega.
Havia uma rosa amarela no chão - sua cor preferida.
Sentiu falta do bilhete que não teve de jogar fora.
Sorriu; sentiu. Sentimento; encanto.
Não notou que se encantava.
Recebeu a rosa por vários dias seguintes: sempre muito cedo, sempre muito amarela, sempre sem entregador ou cartão.
E essa rosa, tão simples e tão singela, fez dela prisioneira.
Ser prisioneira de uma rosa (de um sentimento, de um encanto), fez Lisbeth sorrir mais. Acordava com a campainha - sorrindo. Levava a rosa para dentro - sorrindo. Colocava-a em um jarro com todas as outras rosas amarelas - especiais - sorrindo. Trabalhava - sorrindo. E quando achava que não havia mais sorriso para sorrir, nem riso para rir... Soltava uma gargalhada deliciosa ao vislumbrar as flores amarelas.
Um dia a tal rosa amarela não apareceu. Mas apareceu um bilhete que valeu. Dizia: "É bom te ver sorrir".
Lisbeth deixou-se conquistar por flores.
Casou-se três anos depois com um professor de matemática que tinha, no fundo da sua casa, uma pequena estufa, onde plantava rosas. Plantava porque sabia que elas tinham o poder de fazer sorrir.
Ele amava sorrisos. Mas amava muito mais o sorriso de Lisbeth - e por isso lhe queria sorrindo todas as manhãs.

E aí muda o céu

Digito palavras a esmo. As letras me parecem um conjunto sortido e divertido, com o qual brinco e renuncio. Renuncio à necessidade de fazer sentido. Percebo que nesse mundo meio avulso em que os olhos decodificam como que naturalmente uma série de simbolos esquisitos, o que menos existe é racionalidade - e é o menos necessário também. É claro, o processo de aprendizado é muito racional, insistente, com muita repetição e trabalho. Mas as crianças não vêem nada como se tratasse-se de um grande esforço, de modo que até essa etapa é natural. E que falar de todas as outras? Que falar da intuição com que se dilui em nossa mente algo que lemos? Que falar da ação do subconsciente em cada palavra? Que falar do sentimento que fica?
O sentimento que fica... Para mim, de toda essa brincadeira de lego, o mais importante é o sentimento que fica. Porque ele sempre fica. E não sei se quem gosta mais disso é minha mente ou minhas mãos. Pois que a mente se delicia e as mãos dançam com a caneta a procura da formação ideal, da mais sublime constituição de palavras.
É a alma, no entanto, o aparelho que mais entregue se faz ao processo (e também o mais necessario). Quem lê sem alma, não lê: apenas traduz em sua mente o significado do que está escrito, mas e o significante? E o sentimento? O sentimento só a alma capta. E com que fugacidade! Com que despojamento! Com que renuncia de todo o resto! Com que amor incompreensível! A alma consegue tirar de si o que há de mais belo, a partir das palavras, e o que há de mais terrível também.
E as palavras conseguem fazer da alma o que bem entendem. Uma palavra consegue pôr ou tirar tanto em algo e de algo que é capaz de mudar sua essência como quem brinca com um molde de argila. Minto: a argila continua argila, independente da forma que lhe dêem. E a cada palavra que a gente lê, a gente é menos a gente (a gente vira algo a mais).
Pode-se dar a uma situação o nome de implacável, ou o nome de sublime. Eu posso dizer que o céu é de um azul calmo, e você que é de um azul caótico. E aí muda o céu. E aí mudo eu, e aí muda você. Muda tudo, porque muda a palavra.
Palavra é magia, meus caros, e devemos todos ter cuidado com o que fazemos com ela. Eu fiz da palavra minha melhor amiga, fiel escudeira e companheira; eu fiz da palavra meu feitiço diário de amor e alegria. O que você faz da palavra? Qual palavra você dá à vida?

Irregular

"(...) num peito como o seu, o amor não reinaria como paixão comum."
(Edgar Allan Poe)

Subserviência era uma palavra que lhe causava arrepios. A personalidade de Lisa era cheia de irregularidades, sendo o relevo de seu coração cheio de picos e precipícios. Era um terreno tão perigoso que até Lisa evitava tal percurso, caminhando apenas pelas fronteiras e fugindo, com grande sentimento de estranhamento, a qualquer indício de mudança sentido por seus pés.
Um dia, porém, seu caráter cheio de nuances cansou-se de tudo o que era plácido e plano. Abandonou os vales e resolveu escalar montanhas. Qual palácio melhor para tal descoberta, senão seu coração? Mas ele também tinha precipícios e, descuidada, Lisa caiu em um desses. Essa é a história que cabe a mim contar-lhes nas próximas linhas.
Vivia em seu peito, no topo de uma alta montanha (mais alta que os Alpes, ou até mesmo que o Himalaia), um garoto de olhos claros, longo cabelo e uma lua desenhada bem no meio da testa. Ele usava uma capa escarlate muito comprida, que Lisa pôde enxergar de muito longe e que lhe encheu de muita curiosidade. Escalou a tal montanha mais rápido do que qualquer alpinista, mas, devo dizer, não sem muita dificuldade. Tudo o que circundava o garoto era muito - ele próprio era demais.
Quando Lisa chegou ao cume da montanha e pôde ver os olhos que, de longe, pareciam duas safiras, percebeu que na verdade eram vítreos: refletiam a paisagem ao seu redor - o precioso coração de Lisa.
O que parecia ser muito era tão pouco, que o demais ficou de menos e, decepcionada, Lisa continuou seu caminho, sem olhar para trás, a procura de terrenos ainda mais voluptuosos. Foi quando, imersa nos mais profundos pensamentos, ela caiu em um precipício.
Foi a melhor sensação da sua vida: é claro que dava um pouquinho de medo, um frio na barriga... Mas era como se voasse! Além do mais, quando atingiu o chão nem se machucou tanto - era um terreno macio.
Lá embaixo havia um garoto - pelo qual ela não havia procurado. Seus olhos não refletiam a beleza do coração de Lisa, mas sim a do próprio - sendo, portanto, ainda mais encantadores. Conversaram e descobriram ser aquele abismo queda comum dos corações afins. Conheceram um o coração do outro, e amaram o que viram.
Não eram meias alegrias se completando e se refletindo.
Não eram frutos da busca incansável pelo que não tinham.
Eram dois inteiros compartilhando alegrias e corações.
Lisa descobriu, enfim, o amor.
 

Lapsos de verdade no olhar


Descobri que gosto de lapsos de verdade que surgem como um flash no olhar das pessoas. E penso neles como poesia captada e comprimida. Como amor ou vergonha escondidos. Como dias mal vividos, ou talvez vividos demais. Sabe quando a penumbra vai, aos poucos, sendo iluminada e você vê que é bem possível que tome forma diante de sua observação? Sabe quando ao seu vago perscrutar uma alma vai se contornando a si mesma? Nem mesmo eu percebo a faísca que ...acende em mim quando, num momento desses, sinto um brilho assim nos olhos de alguém. Mas com certeza que senti nos olhos de cada um que amo e com certeza que essa tal fraqueza (conceito infundado) vem me despertando cada vez mais simpatia. Quando é que meus olhos dizem tantas coisas assim? Eles dizem? Eu abro suas portas para um viajante que, vez ou outra, quer conhecer minhas verdades? Verdades... Eu gosto de verdades. Até considerei que talvez gostasse de pessoas que escondiam (por amar esses olhares que revelam), mas percebi que na verdade gosto da iluminação do oculto. Gosto de sondar mistérios. E quantos são os mistérios que cabem dentro de um par de olhos?

VS.

Luz vs. escuridão. Dia vs. noite. Sol vs. lua. Amor vs. ódio.
Opostos.
Combate.
Luta.
Tudo isso existe?
Talvez, e apenas talvez, o vs. seja uma criação humana. A dualidade é óbvia e nos acompanha em todos os lugares. Uma espécie de polaridade. O feminino e o masculino de todas as coisas. Sim. Pólos. Mas pólos de um uno. Não há, e nem pode haver, luta. A nossa racionalidade tem essa terrível mania de criar guerra. Coroar vencedores. Honrar disputas. E isso se reflete em nossa vida cotidiana. O fracasso é intolerável na humanidade. Dói. Perder é cair, e por que cair? Vemos a vida de opostos. De bem e mal, certo e errado. Mas, ao contrário do que ensinam na escola, bem talvez não seja o extremo oposto de mal, e nem bom de mau. Talvez o lobo mal nem seja tão mau assim no fim das contas (ops!).
Embora poucas vezes pensemos no assunto, viver no negativo não é tão mal assim. É uma polaridade de nós, que existe em nós, e que devemos aceitar.
O sol e a lua não brigam por espaço. Eles dançam, numa vida eterna, em um ciclo irremediavelmente sem fim. A natureza se intercala entre dias de inverno e verão, outono e primavera. A flor nem sempre desabrocha e talvez por isso é tão perfumada e bela. O céu nem sempre é azul, e talvez pelas nuvens que às vezes escondem sua beleza, é que ele nos seja tão encantador.
A vida coexiste. Ela não precisa de luta. Ela tem em si a harmonia, e essa é a fonte de sua prosperidade.
Por que então o ser humano é incapaz de coexistir consigo? Por que sempre elegemos mocinhos e vilões para nossas tramas (e para nossas vidas)? Por que sempre rotulamos atitudes como certas e erradas, sem pensar em sua essência, seu sentimento, seu equilíbrio? Por que tem de haver, para nós, bem e mal? Anjos e demônios? Amigos e inimigos?
Negamo-nos a entender que, em nossa individualidade, somos parte de um todo. Vemo-nos como uma poeira no universo, ou sequer paramos para nos ver realmente. Acreditamos que somos uma criação póstuma, quando, na verdade, temos o poder de criar o que quisermos. Não conseguimos aceitar o quão poderosa é nossa mente, porque a escravizamos a ver a vida como sempre foi vista. Somos poeira estrelar, não é mesmo? Os átomos de nosso corpo não foram recriados (e Lavoisier riria com essa suposição), eles sempre pertenceram a algum lugar. Nosso cérebro não tem a capacidade de pensamento ao acaso (não seria incrível demais?). Nós somos deuses. Nós somos um. Somos energia, como as demais coisas a nossa volta. Temos nossas individualidades, mas precisamos entender que tudo está a nós ligado de maneira irremediável.
Vivemos em uma teia. Não uma teia de luz, nem uma teia de trevas. Mas uma teia em que ambas se intercalam. Em ciclo. Em harmonia. Assim como a natureza - que também faz parte de nós.




De agora


Eu queria ter um pouco mais dessa alegria inocente,
queria poder falar mais palavras bobas,
pensar aleatoriamente.
Mas é a cabeça que me prende.
São os fluxos incessantes,
são os sentimentos lamuriantes.
A desculpa é entender demais da vida.
A verdade é que não se entende nada.
Caso fosse sabido,
o coração não ficaria perdido.
O amor seria restabelecido.
Eu veria que a vida é simples e boa:
a gente a vê como entende.
Nosso pensamento é que ecoa.

A gente enxerga a beleza da vida


As pessoas dizem que a beleza da vida está nas pequenas coisas. Vou contar-lhes um segredo: essas pessoas são pequenas. A beleza da vida está onde quer que seja. A beleza da vida está naquilo de mais profundo e, também, de mais sublime. Está no universo, e na gota d'água. Mas, principalmente, dentro de nós. Sim, a beleza está dentro de nós. A gente enxerga a beleza da vida quando respira fundo e a alma sente prazer em fazer expandir os pulmões. E isso acontece na cidade, no campo, na chuva, na seca - não importa o ar, importam os pulmões. A gente enxerga a beleza da vida quando o olhar se ludibria ao contemplar o céu. E esse céu pode estar coberto de nuvens, pode estar azul como aquarela, ou pintado de crepúsculo - não importa o céu, importam os olhos. A gente enxerga a beleza da vida quando os ouvidos vibram com o som. Pode ser música, pode ser silêncio, pode ser voz - não importa o som, importam os ouvidos. A gente enxerga a beleza da vida quando sente a temperatura percorrer o corpo. Temperatura baixa ou alta, arrepiante ou transpirante - não importa a temperatura, importa sentir (o sol ou a neblina) na pele, de maneira única. A gente enxerga a beleza da vida quando sorri - e não importa o motivo, o importante é sorrir com a alma. A gente enxerga a beleza da vida, quando ama - e não importa que tipo de amor - importa que desperte, que aflore, que conquiste a nós mesmos com sentimentos unos e sensações inesquecíveis. A gente enxerga a beleza da vida quando passa a ser a beleza da vida. Quando tudo, tudo mesmo, das mais ínfimas às mais grandiosas sensações, passam a ser importantes, belas. Passam a fazer parte da nossa alegria.

A gente enxerga a beleza da vida. É a beleza da vida que importa ou a beleza do ser? No fim das contas, somos um. Somos o universo, temos o divino, temos tudo que nos desperta o prazer dentro de nós mesmos. A gente enxerga a beleza da vida, porque a gente é a beleza da vida.

Ostara e a Páscoa

Muitas das comemorações cristãs têm, em suas essências, aspectos marcantes do paganismo. As datas chegam a coincidir muitas vezes e eu, particularmente, acho isso o máximo! Antes que me perguntem: eu não tenho religião. Eu tenho uma mescla de crenças completamente malucas. É exatamente por isso que tenho tanta afeição por essas comemorações atualmente cristãs que têm um pézinho lá no paganismo.
Primeiramente, vamos estabelecer algumas coisas.
1. Cristianismo é um termo vulgarmente usado para denominar o catolicismo e suas posteriores vertentes (como o protestantismo), mas na verdade se refere a toda e qualquer ideologia que tenha como base Jesus Cristo e seus ensinamentos. Isso quer dizer que a umbanda e o candomblé, religiões que surgiram a partir do sincretismo do catolicismo e da cultura africana, é cristã (apesar de muitos dos cristãos afirmarem categoricamente que é "coisa do diabo");
2. Paganismo é um termo vulgarmente usado para denominar religiões politeístas ou, nos dias de hoje, tudo aquilo que não é cristianismo. No entanto, a palavra "pagão" vem do latim "paganus", ou seja, aquele que mora no "pagos", no campo, na natureza. Dessa forma, o paganismo é o culto e o respeito às forças da natureza;
3. O catolicismo conviveu durante muito tempo com o paganismo em ascenção e, como acontece em toda cultura e religião, agregou a
sua ideologia vários costumes pagãos.
Entende-se dessa maneira que, ao contrário do que muitos pensam, o paganismo e o cristianismo não são ideologias opostas. Uma pessoa pode facilmente crer em Jesus e seguir seus ensinamentos, enquanto reverencia às forças da natureza. Para encarar a questão levantada a seguir, deve-se desmistificar dos conceitos errôneos que nos são impostos e tentar enxargar as coisas de forma menos esteriotipada.
Antigamente, todas as pessoas eram pagãs. Os camponeses celebravam as mudanças das estações e construíam uma série de ritos e mitos acerca da natureza. O Equinócio de Primavera era, para eles, Ostara. É o momento do ano em que o Sol está diretamente em cima do Equador, fazendo com que o dia e a noite tenham a mesma duração. Ostara é basicamente um ritual solar, sinalizando na agricultura o tempo em que as sementes são plantadas e começam seu processo de crescimento. Ou seja, simboliza o início da fertilidade. O embriãozinho que vai tomando vida.
Ostara tinha como característica em sua tradição a decoração de ovos. Os ovos simbolizavam a fertilidade da natureza e, em conseguinte, de seus deuses criadores. Além disso, era comum as pessoas esconderem esses ovos, uma vez que encontrá-los simbolizava que a pessoa alcançaria suas metas. (Alguma semelhança com a Páscoa?)
Não para por aí! Os coelhos eram tidos como um dos maiores símbolos de fertilidade do paganismo, uma vez que levavam 28 dias (um ciclo completo de lunação) para gerar e dar a luz a seus filhotes. E, cá entre nós, como eles têm filhotes! Acreditava-se naquela época que um coelho havia pedido algum favor à deusa e, em troca, botou um ovo e decorou-o, presenteando-a. Essa deusa era Ostara ou Eostre, divindade saxã que simbolizava a primavera, a ressurreição e o renascimento (outra grande coincidência, não é mesmo?). Segundo a lenda, ela teria ficado tão feliz com o presente que acabou por decidir que toda a humanidade deveria recebê-lo. Assim, o coelho passou a viajar todo o mundo no equinócio de primavera, distribuindo a alegria e o amor da fertilidade e do renascimento da deusa Ostara.
Obs: trata-se da primavera porque estamos falando da Europa, no hemisfério norte. Nessa época, os nossos índios aqui na América Latina também deviam estar comemorando de algum jeito muito especial a chegada do outono.

Um parágrafo sobre o mundo

Esse mundo me trucida e me desgasta. Sua beleza me parece deprimente, já que é tão pouco admirada; sua essência me perturba, por ser ela mesma tão perturbada. Arrebenta-me, esse mundo, pois que todos parecem rebentar em explosões e explodir em rebentos - enquanto rebento eu mesma em lágrimas que nunca escapam aos olhos e explodo em revoltas contidas. Não é que eu não o entenda - é que o entendo em demasia. Entendo-o em seu âmago e conheço todas as suas peripécias. E é esse saber que me causa transtornos: vejo com tanta nitidez as correntes que aos outros são invisíveis! Quero desprender-me dos grilhões que me esmagam os ossos, mas quanto mais luto contra eles, mais o seu ferro gélido comprime meus pulsos. Sinto-me sufocada por esse mundo, como se o ar me fosse impróprio aos pulmões. Eu grito, esperneio e desespero. Eu suplico para ver-me liberta desse fardo, para ver o fardo transformar-se em bálsamo. No entanto, quanto mais rogo clemência, mais a realidade parece aprisionar-me a alma, que tanto anseia pela liberdade. Cortaram-me as asas, mas ainda tenho em minha essência o impulso de voar. Crescerão um dia as asas - as minhas, novamente, e as do mundo, incrivelmente?

Grande Pequenez


Apago e deixo de lado o que podia ser grande como um monte. Esqueço, porque não quero a grandeza. Quero o encanto das belas nostalgias, o encanto do pequeno e ínfimo, que faz a diferença que nada de maior nunca pôde. Não quero ser como o gigante que ataca, mas como o anão ágil que recua e evita, até que o outro tropece em seu próprio pé. Quero ser como fada delicada cuja pequenez da fantasia traz o sorriso à criança e a perplexidade ao cético adulto, e cuja magia faz nascer no seio de qualquer alma amor resplandecente. Sim, eu quero ser aquele pequeno brilho que resplandece. Eu não quero ser sol, mas quero ser lua: refletindo e emergindo na noite, como uma guardiã noturna. Quero ser o pequeno botão de flor, e não a grande e voluptuosa rosa vermelha florescida: pois que quero ser delicada e frágil, ainda que cheia de espinhos para me proteger, pois que quero ter sempre a capacidade de desabrochar em sentimentos unos.
E é dessa pequenez que me restituo oceano: e é esta alma pequena que faz-se eterna e infinita. Que escreve, e escrevendo perpetua. Eis aqui a minha aurora, o meu florescer. Eis aqui como me banho de raios dourados, como me inundo de alegria. Eis aqui como faço o meu ser ser mais que um: como viro coletivo e, virando-o, faço-o diferente. Sim, diferente. Eu quero mudar. Eu quero brilhar. E que seja uma pequena mudança: uma palavra, um sorriso. Mas que mude. Que seja um pequeno brilho: um amor, um olhar. Mas que brilhe e que ilumine. E que meus passos pequenos e luminosos possam guiar outros pela escuridão que eu mesma enfrentei, como se fossem vaga-lumes ensandecidos de paixão. Paixão pela vida que surgiu antes de rasgar o ventre de minha mãe, que surgiu antes de meus olhos presenciarem a luz do dia. Paixão pela vida: essa vida maior que é mais do que a existência.
Minha vivência é feita de paixão e é essa a engenhosa grandeza de minh'alma.

Sobre essências que dançam e reluzem

Algumas pessoas têm uma luz especial dentro de si. Resolvi escrever sobre elas, ao invés de escrever sobre aquelas que deixaram minha alma índigo brilhando em um vermelho enfurecido. Algumas pessoas sorriem um sorriso que irradia afeto. Seus olhos reluzem um amor intrancedente pelo infinito, pelo tudo que é maior do que todos. Essas pessoas aceitam a condição da matéria e a vida carnal, pois sabem que essa é a melhor maneira para se elevar. Essas pessoas estão sempre dispostas a aprender, a pensar, a perdoar, a aceitar. São pessoas que não só aceitam, mas amam a imperfeição, pois sabem que sem ela tudo seria muito banal e sem sentido. São pessoas que amam as particularidades alheias e se divertem observando-as, registrando-as, absorvendo-as.
Essas pessoas entendem que certas coisas fazem mais bem do que mal, e que outras fazem mais mal do que bem, mas não interferem no juízo que aqueles que estão ao seu redor fazem do certo ou errado. Entendem que os pensamentos são subjetivos - e que isso enche a vida de beleza singular. Essas pessoas estão sempre a postos para compreender: compreendem todo tipo de atitude, todo tipo de pensamento, todo tipo de erro. Elas só não toleram a injustiça, elas não toleram que se julgue uns aos outros, não toleram ofensas a quem quer que seja. Porque elas vieram para ser paz e fazer paz, e sabem que a felicidade não pode coexistir com atitudes de tão baixa estirpe.
Mais que paz: essas pessoas querem o caos da felicidade e da alegria sem limites. Elas querem o caos do amor verdadeiro e das emoções de grandeza. Elas querem a turbulência pacífica que o espírito sente quando penetra a real pureza da existência. Essas pessoas entendem que apenas aceitando o que são e tentando sempre elevar suas atitudes e seus pensamentos é que se encontram com o divino. O divino que está dentro de cada um. Essas pessoas querem se conectar com essa energia primordial do universo que vibra em cada essência, em cada coração. Elas sabem que dentro de si há uma imensidão imensurável e que, ao mesmo tempo, fazem parte dessa imensidão. Elas amam o universo, e são o universo. Sabem que todas as energias estão interligadas, que há uma teia invisível que une tudo aquilo que existe. Sabem que o pensamento é a força mais poderosa.
Sabem que muito ainda é desconhecido, e lutam por adquirir cada vez mais conhecimento. Sabem que nada sabem, e é isso que os torna diferentes dos ignorantes. Estão sempre em busca de mais. Estão sempre em busca do amor: da energia mais pura, da força mais suprema. Não se importam em que face vem esse amor: se é o amor do recém-nascido, da velha sábia, da mãe ou da donzela. Não se importam se esse amor vem do azul do céu ou do vermelho faiscante das chamas. Se vem do profundo impenetrável do oceano ou da redenção da terra que está sempre ao nosso redor.
Eles vêem o amor na natureza e em todo o resto. Vêem o amor em tudo e, por se ligarem de forma tão bela a sentimentos de tão alta estirpe, têm na aura um brilho que resplandece. É por isso que são tão felizes, e ao mesmo tempo se sentem tão sós: não são compreendidos, mas compreendem. E amam. Amam, amam, amam. Têm em si o maior poder no mundo: a própria mente e o amor que sentem. E sabem que podem construir o que quiserem com esse poder. Porque a mente comanda tudo, e o amor é a única força capaz de vencer todo tipo de trevas.
Eleve-se ao amor existencial, e não ao superficial. E resplandeça você também! Faça com que a sua essência fomente e chacoalhe. Faça com que ela dance e, finalmente, reluza. E seja, você também, uma dessas pessoas que deixam que o seu brilho ascenda e acenda tão firmemente que acaba por guiar os outros através da escuridão.

Santuário

Está tudo tão vazio e sem sentido... A página me aguarda em branco e as palavras não vêm dar o ar da graça. Ainda há todo um caderno para ser preenchido – e páginas em branco me assustam. Pulei a primeira: não confio o bastante em mim mesma para escrever numa primeira página – e talvez ela também me assuste um pouco. Estranho pensar em como antes tudo isso me excitava e divertia; desafiava-me.
Não peço mais para que me desafiem: sou meu próprio desafio e, covarde, não sei como enfrentar-me. Entrego-me, portanto, ao ócio e à rotina – e tenho asco dessa atitude fugitiva. Não mais permito que grandes sentimentos me invadam a alma furiosamente – logo eu, que sempre me orgulhei de meus ímpetos flamejantes. Meu eu vai dessa forma perdendo o preenchimento luminoso e o contorno singular, ganhando o aspecto rotineiro e maçante dos espíritos que não têm nobreza. Torno-me cada vez mais pérfida e superficial, escondendo meu real brilho no mais profundo poço de meus labirintos.
Antes de perder-me nas linhas frias desse caderno, perco-me dentro de mim. Mas não me perco em voluptuosidades: perco-me no oco e no caos do nada – ao invés do caos do todo que sempre me apeteceu a alma aventureira. A aventura também se perde; perde-se no unilateral dia-a-dia. Minha alma perde as facetas de diamante; minha aura perde a cor – torna-se opaca. Perde-se tudo, menos a covardia e o medo.
Eles me sufocam e enevoam-me a visão – fico sem reação, sendo que tudo o que mais preciso é reagir. Pois que eu faça dessa confissão a minha reação e que, reagindo, eu ganhe cada vez mais força. Emergir-me-ei dessas águas tumultuosas que me afogam, graças ao poder sem limite das palavras que proclamo.
Faço de mim meu mais sagrado santuário de minha própria luta.

O fim de uma Era

Com os pés descalços, Agatha ia adentrando nos mistérios da floresta, passo a passo, sentindo a grama úmida de orvalho e a terra entre seus dedos. As folhagens das árvores lhe ocultavam o luar e dele ela podia apenas fisgar resquícios. Não enxergava nada senão um breu de tons confusos, mas não tinha que enxergar muito: mesmo em sua semi-cegueira, sabia exatamente para onde se dirigia. O cenário ficava cada vez mais claro e lúcido e, vagarosamente, iam-se diminuindo os obstáculos pelo caminho. Dois troncos a sua frente faziam um portal, retorcidos, unidos, no gracioso esplendor da arquitetura da natureza. Agatha sorriu; seguiu a diante; viu o luar. Era inóspito, distante. Brilhava em sua magia, solidão e mistério, ainda assim fazendo parte de todo o cenário e cedendo-lhe um pouco de sua magnificência e exuberância.
Estava em uma clareira cercada de árvores gigantes e iluminada pelo tão altivo luar. O lobo a esperava no centro da clareira: era enorme e belo, tinha olhos mansos, fortes e destemidos – como deveria ter todo rei – e os pelos macios e aconchegantes. Uivou com a chegada da bruxa, levantando-se nas patas trazeiras e tentando alcançar a lua. Agatha correu a seu encontro e abraçou aquele que era seu protetor. Deitaram-se ambos, aconchegando-se um a energia do outro, revigorando suas almas em benefício daquela harmoniosa troca. Agatha acomodou-se sobre o gigantesco lobo e observou a luz fantasmagórica da lua. Entraram em transe juntos, bruxa e lobo, vendo o fim de toda uma Era do mundo que ficava do outro lado do portal.
O que para os outros era caos e destruição, para eles era bênção e redenção. Se os humanos viam um fogaréu chamejante, os seres que tinham em si a Magia e a Verdade viam a luz explosiva das salamandras a desejar glória à humanidade pela ascensão. Se os humanos viam destrutivas rajadas de água, eles viam a pureza sendo enviada pelas ondinas em forma de ondas revigorantes. E, se os furacões levavam as casas, eram os silfos dizendo que não precisariam mais de tudo aquilo de tão material e concreto. Se a terra engolia os carros, eram os gnomos dizendo que a mente viaja mais rápido e não agride a mãe natureza.
O lobo uivou em êxtase e, se a humanidade o visse, diria que seus olhos tingiam-se do vermelho do sangue, que sua expressão era raivosa, que ele amava o caos. Mas ele amava a vida e seu ciclo incessante de amor e renovação, ele amava a natureza e todas as maravilhas que a acompanhavam, ele amava a magia e conseguia senti-la nas menores coisas. Seus olhos tingiam-se de azul, como o céu puro e calmo. Sua expressão era benevolente. Com o uivo do companheiro mágico, a bruxa despertou. Na Terra, sua morada temporária, era vista como má. As pessoas eram ignorantes e julgavam suas crenças e seu poder. Mas, em sua essência, ela estava em paz. Em seu mundo, ela era compreendida e amada. Em seu mundo, toda a sua magia era sagrada.
Ajoelhou-se e agradeceu à Lua.

Retrospectiva Palavras de uma Menina 2013!

Nesse fim de ano resolvi fazer duas surpresinhas por aqui... Uma é em homenagem ao próprio blog, que em 2013 alcançou seu máximo de visualizações por dia. Antes de escrever esse texto dei uma checada nas estatísticas do blog e me impressionei: ao todo são nada mais nada menos que 5104 visualizações! Portanto, creio que minto quando digo que a homenagem é feita ao blog... Na verdade, esse texto é um agradecimento a vocês. Descobri até que tenho fãs! Gente que não perde uma postagem e que adora ler meus textos. Isso é de deixar qualquer pseudo-escritor feliz. A outra surpresinha vem mais tarde (suspense, hahaha).
Bom, vamos lá. Retrospectiva Palavras de uma Menina 2013!
O ano aqui no blog começou dia 06/01, com o texto A Maior Expressão da Perfeição. Juro que não me lembrava desse texto e, quando o li, lembrei das circunstancias e os motivos que me levaram a escrevê-lo. Assumo que até uns meses atrás esse era um assunto que ainda me chateava de vez em nunca, quando uma memória me assaltava a mente, mas de um tempo para cá tenho esquecido completamente sobre isso. Fiquei receosa de reler o texto e ficar, novamente, incomodada. Mas ao fazer isso, percebi que o texto é, na verdade, sobre uma grande conquista minha. A mudança de ponto de vista que apresento nesses escritos foi essencial na minha vida, o ponta pé inicial de tudo aquilo que hoje me faz tão feliz. Lá vai um trechinho: Tanto a água pura quanto a poluída cai sobre a terra e é sempre tida como bênção: é a Vida em uma de suas maiores expressões de perfeição. Ambas – a água pura e a poluída – evaporam e fazem falta: o terreno se torna seco e sem vida. O cenário é horrível. Mas então ela volta em forma de chuva e, dessa forma, volta pura. Aprendi que assim também é o amor: ele pode ser destrutivo ou construtivo, mas, se existe, nosso coração pula em alegria indescritível. Quando vai embora faz falta: faz com que nos sintamos vazios. Quando volta, vem melhor.” Leia aqui.
Depois desse texto, vem o Novidades no Blog. Um monte de ideias que tive para melhorar o Palavras de uma Menina – e que nunca coloquei em prática. Peço perdão... Quem sabe as coisas mudem em 2014?
Aí é a vez de Tic-Tac! Que delícia escrever esse conto! O processo de escrita começou no meio da aula, lembro-me bem, no meu caderninho de textos. Quando digitalizei, melhorei uma coisinha ou outra, e plin! saiu assim um dos meus escritos que mais gosto. Falando um pouquinho sobre medo, um pouquinho sobre loucura, e talvez sobre coisas que persistem em invadir nossa mente, Tic-Tac esteve por muito tempo no ranking dos mais lidos do blog e, na minha opinião, deveria voltar para lá! “Sua mãe dizia-o tísico e tubérculo, acusando-o de pecador por tão desgraçada saúde. É verdade que nunca fora abençoado com os ares salutares que exalavam de sua árvore genealógica, mas também nunca fora amaldiçoado com aquela vontade infernal de pecar, com aquela chama mortal que queima as almas, criando máculas horrendas no ser daqueles que o fazem. Não, nunca pecou. Era, na verdade, um ser bastante pacato (...) À medida que o tempo passava, ia ficando cada vez mais ensurdecedor. Nos últimos anos, tornara-se insuportável: ouvia-o antes de dormir, principalmente quando a mulher ainda não havia chegado em casa; ouvia-o durante o trabalho, quando o patrão lhe vigiava com olhos de águia; ouvia-o quando visitava o túmulo da mãe, com o mármore frio vigiando-lhe e alertando-lhe de que devia se confessar.” Leia aqui.
Chegamos então a Caos. Caos é um desses textos que o escritor cria tentando ajudar a si mesmo e que, na maioria das vezes, acaba ajudando uma cambada de gente! Também gosto muito desse texto e o recomendo às pessoas que se sentem vazias. Foi uma fase de mudança para mim e que me levou a ser muito mais feliz do que fui em qualquer outro momento de minha vida, embora as circunstancias externas não levem a crer nisso. É impossível descrever, sugiro que leiam! Aqui vai um pouquinho dele, para vocês ficarem com água na boca: “Eu quero o caos de não ter certeza de nada, eu quero o caos de falar o que eu quiser e fazer o que eu quiser. Eu quero o caos de poder querer. Eu quero o caos de ser eu mesma, pois agora até duvido de que eu exista. Estou viva, mas não existo. Os dias passam, e é apenas isso que significam para mim. Sinto-me em um abismo, sendo sugada, mas sem lutar contra nada, com uma resignação que causaria asco naquela menina que eu fui um dia.” Leia aqui.
Em 19/06 a mudança em mim estava estabelecida! Eu tinha um jeito todo meu de pensar, novo e sem medos. Minto, estava repleto de medos! Mas tinha, mais do que isso, coragem. Não se enganem: a coragem consiste em enfrentar os medos e não em não tê-los. Esse é outro texto indescritível, um dos melhores que já escrevi, um dos que mais gosto. Se eu fosse dizer um texto desta lista que vocês TÊM de ler, seria esse. “Chegamos a ponto de não nos permitir ao menos desejar. E, aí sim, o anseio torna-se importante para nós: é preciso deixar-se querer. Até certo momento, dá-nos forças, depois de um tempo, aniquila-as. Tudo na vida tem que ter equilíbrio, não é mesmo? Não. Todos concordam que felicidade nunca é demais. Deveríamos primar por ela, portanto.” Leia aqui.
Vem então Paredes – outro texto incrível, modéstia parte. Até hoje não sei de onde raios me veio essa ideia, acho que simplesmente fui escrevendo, como de praxe, e a coisa toda foi fluindo. Paredes conta sobre um mundo em que as pessoas mostravam o que eram em uma parede. E sobre como Priscila venceu alguns vícios e problemas com uma só escolha – uma escolha que deu trabalho, mas que deixou sua parede muito mais bonita. As paredes estavam todas manchadas, machadas de café, de tinta, de rabiscos de crianças, machadas de bolor. Estavam manchadas de alguma coisa que as tornava diferentes uma das outras e, de certa forma, especiais. Todas elas haviam sido brancas um dia, mas seus donos resolveram dar-lhes nova cor, dar-lhes características próprias.” Leia aqui.
Filha das Águas foi escrito a partir de anseios pessoais e um trechinho da música Never Let Me Go, de Florence Welch. E, claro, com a minha mãe servindo de forte inspiração. O conto fala de Luisa e de sua descoberta: Luisa sempre foi, em sua alma, uma sereia. A candidez do toque do mar gelado em seu corpo trazia-lhe grande sensação de paz, como se uma luz branca invadisse-lhe a alma. Abriu os braços, deixando que as ondas levassem consigo tudo de ruim que havia em seu corpo e sua alma. Fechou os olhos, imaginando um negrume sair de si e ir se dispersando no sem-fim oceânico. (Depois me disseram que 13/08, o dia de postagem desse texto, é também o dia da Deusa Hécate... Coincidência? Vocês decidem.) Leia aqui.
Continuando nessa linha espiritual, escrevi A Cabocla – texto inspirado na Cabocla Jurema, entidade da Umbanda. Foi muito bom escrever sobre essa entidade incrível, não sei muito sobre ela, mas tenho certeza de que fui muito bem inspirada para criar esse conto. “Saiu em disparada, com a cabeleira negra ao vento, as penas que vestia a dançarem pelo corpo. Parecia, antes de índia, onça, tamanha era a afinidade de sua alma com a mata e os bichos.” Leia aqui.
Chegamos finalmente a um texto que me é motivo eterno de orgulho! Em quarto lugar no ranking dos mais lidos do blog, Pelo Direito de Ser – Não Importa o Que retrata uma luta pessoal. Texto cheio de ideologias, contra qualquer tipo de preconceito e opressão. Se você, algum dia, já foi julgado, não tem como não ler. Ideias um pouco fortes para alguns, mas incrivelmente necessárias. Sério mesmo? Com toda a modéstia, é incrível! “É isso mesmo: defendo o direito de ser imperfeito. Esse que todos temos – ou deveríamos. Defendo o direito de ser o que se é e não o que se quer que seja. Defendo o direito de ir contra a corrente. Defendo o dever de não julgar, afinal, cada qual é cada qual, o certo e o errado são subjetivos e as coisas que trazem felicidade, também.” Leia aqui.
Sobre Balões e Medos surgiu de um desafio proposto por minha professora Luciana a mim e a um amigo: tínhamos de escrever sobre o medo de ter medo. É um desses textos super criativos que eu não sei de onde saem – mas sempre saem, e sempre ficam demais. Também gosto muito dele. O que você faria se estivesse nessa situação? “Contudo, eram humanos e humanos têm, em seu coração, medo. Um medo sufocante do novo; um terror ácido que corrói a vontade e a curiosidade; umas brumas densas de temor que envolvem o coração e cegam a visão; um horror que inutiliza o cérebro.” Leia aqui.
Chegamos em novembro com Sobre Pessoas e Flores Violetas, texto que inicialmente foi escrito como prólogo de um futuro livro, mas que resolvi postar por tê-lo adorado. É isso que você quer? Deixar seu eu, sua essência, a si próprio com todas as particularidades e perfeições de lado e viver uma vida inventada, com alegrias falsas? Você tem fé? Você crê em algo? Bem, comece a crer em você.” Na minha opinião, esse texto merecia mais visualizações do que tem... Leia aqui.
É a vez de Fugindo ao Comum – o tão polêmico texto. Pela qüinquagésima sétima vez: eu não defendo o aborto. Vida é vida e é feita para ser vivida. Eu, como feminista, creio somente que ele deveria ser legalizado, porque a mulher tem de ter o direito sobre o próprio corpo, e em nome de tantas que arriscam suas vidas em métodos arriscados. Não se enganem: ele acontece, havendo legalização ou não. Com a legalização, entretanto, é tudo mais justo e seguro. Não vou colocar trecho, minha opinião já está aqui e quem quiser mais argumentos pode clicar no link ao lado. O texto está em décimo lugar no ranking – afinal, a polêmica serviu de algo: foi uma bela publicidade. Leia aqui.
Terminamos a retrospectiva com Contagiante – outro texto que amo e que deveria ter mais acessos. Foi postado no dia 18/12 e não há palavras para descrevê-lo (senão as que estão nele). Merece a leitura, de verdade. Eis minha filosofia: ser o que sou, fazer o que quero, pensar como devo, viver para ser feliz. E viver para ser feliz não é sair fazendo tudo o que lhe vem a cabeça, é esquecer o que vem a cabeça dos outros quando você faz algo. (...)Quê é a imagem? Vaga; passageira; para ser distorcida precisa apenas de um grão de maldade. (...)Um dia, talvez, alguém leia esse texto e realmente o compreenda. Não me chamarão de louca, nem de idealizadora. Ao invés disso, essa pessoa sorrirá – se sentirá compreendida. Eu lhe compreendo, alma feliz.” Agradeço pelo número de pessoas que vieram me contar que se sentiram compreendidas: vocês restauram a minha fé no mundo. Leia aqui.

Enfim, qual foi o saldo do ano? Textos maravilhosos. Creio que aprimorei bastante minha escrita, minha criatividade e minha ideologia – criando textos cada vez melhores. Se preparem: ano que vem só tende a melhorar! Obrigada, novamente, pelas visualizações e por esse 2013 incrível de escrita.

Contagiante

Algum dia as pessoas a minha volta acostumar-se-ão com o que sou, com minhas particularidades. Passarão a melhor aceitar minhas inconstâncias e meus delírios – até acharão tudo isso muito normal. Dirão: “É excêntrica, essa menina”. Não se sentirão desconfortáveis com minhas atitudes e minhas palavras – minhas sinceridades. O que acontece, o que sou – na lata. Algum dia as pessoas entenderão que não têm a coragem que tenho, mas que não devem me julgar por isso – ao contrário. Compreenderão, essas pessoas, que resolvi deixar para trás os conceitos de certo e errado, de aceito e não aceito. Achei legal isso de nadar contra a corrente – a corrente era constante e homogênea demais. Às vezes peco em minha filosofia, e geralmente acontece quando sou criticada por alguém que muito considero. No fim, entretanto, sempre volto a ela, e a ela sempre recorrerei porque sei que é fonte de minha felicidade.
Afirmo: se todos tivessem essa coragem e essa disposição que tive, o mundo seria melhor.
Eis minha filosofia: ser o que sou, fazer o que quero, pensar como devo, viver para ser feliz. E viver para ser feliz não é sair fazendo tudo o que lhe vem a cabeça, é esquecer o que vem a cabeça dos outros quando você faz algo. É agir pelo prazer, mas é ter consciência do que é benigno e maligno para si. Em minha ideologia, nada que possa fazer mal ao outro, é bom para mim. Então, ao contrário, faço apenas aquilo que desperta aos outros as emoções mais puras – e a felicidade mais terna. Porque é isso que quero para mim.
Não julgo – cada qual é cada qual. Além do mais, não gosto de ser julgada.
Esqueçam o tal do “não é bem visto”. Para quê precisa ser bem visto? E quê muda não ser?
Reprimimo-nos em nome da imagem inconscientemente. Quê é a imagem? Vaga; passageira; para ser distorcida precisa apenas de um grão de maldade. Esqueçam a imagem – senão aquela que vocês têm de si mesmos. Porque é isso que importa.
O que você realmente pensa de si? Isso que deve fazer diferença em sua vida.
E, enquanto estiver a pensar sobre si e achar algo que não gostou muito, passe esse achado por algumas peneiras. Por que não gostou? Que mal há nisso? É algo que deve ser mudado? Se, sim – mas apenas se realmente sim – mude. Pela sua felicidade, tenha a coragem da mudança.
Adapte sua vida para si, para sua alegria. Faça dela uma luz contagiante, e guie os outros através da escuridão.
Acredite: você vai falar sozinho por muito tempo. Mas alguns entendem, e também passam a irradiar uma luz encantadora. Assim, o mundo vai ficando, aos poucos, mais luminoso, mais alegre.
A tristeza, é bem verdade, traz o conhecimento, o crescimento. Mas de nada adianta se você não consegue enxergar o arco-íris após a tempestade. A alegria é necessária e você pode, sim, ser feliz hoje.
Você pode ser feliz sem dinheiro, sem o carro dos sonhos, sem o parceiro ideal. Você pode ser feliz em uma casinha pequena e confortável, andando em uma bicicleta e fazendo o que ama todos os dias. Você nunca está tão sozinho quanto pensa.
Sempre tem alguém que, assim como você, resolveu ser feliz – e esquecer os padrões da sociedade. Ser feliz de verdade.

Um dia, talvez, alguém leia esse texto e realmente o compreenda. Não me chamarão de louca, nem de idealizadora. Ao invés disso, essa pessoa sorrirá – se sentirá compreendida. Eu lhe compreendo, alma feliz.

Fugindo ao comum

Aviso desde já: esse texto não será como os outros. Fugirá ao comum de vossa leitura nesta página, caro leitor. Sucede que cansei de explicar mil vezes o mesmo posicionamento e, cansada, resolvo explicá-lo ainda mais uma vez – escrevo. Será, portanto, a vez definitiva, eternizada pelo papel e pela tinta. Ainda que, já que vivo na era da tecnologia, se necessário for posso vir a acrescentar um ou outro aspecto que me falhou ou faltou na primeira argumentação.
Eis que meu tema é a legalização do aborto e minha tese é a favor. Nem por isso nego o direito da vida e a benção genuína que ela representa. Remendo-me com detalhes necessários para a compreensão do caro leitor: não sou a favor do aborto, mas, como já dito, de sua legalização.
Pensemos no contexto e logo compreenderemos minha defesa. O Brasil tem, em sua legislação, que o aborto é crime. Não é a toa que a mulher brasileira nada pode; não é a toa que uma em casa três brasileiras já sofreu um estupro; não é a toa que somos obrigadas a trocar de roupa para sair na rua se quisermos evitar sermos agredidas por olhares e palavras machistas; não é a toa que somos obrigadas a abaixar os olhos e engolir uma série de humilhações de gênero. Afinal, o país nega, em sua base política, o direito que a mulher deveria ter em relação ao próprio corpo – o direito de escolher quando, como e com quem deve ter um filho, e quando não deve.
É mais fácil – e mais bonito aos olhos dos moralistas e conservadores – criar uma bela Lei Maria da Penha. Não me calo e logo digo: vivemos em um país cheio de hipocrisias, e essa é apenas mais uma.

Sobre o aborto em si, a conversa é outra. É pessoal. Se uma amiga pedisse-me a opinião, seria essa: de que a vida tem de ser resguardada. De que a vida é linda. De que nada vem por acaso na nossa vida. Mas é pessoal e, ainda mais: subjetivo. O que não é nada subjetivo é o fato de que o país deveria dar à mulher esse direito – ou ao menos permiti-lo.