Sobre

Reunindo uma série de textos escritos por mim, Janaína Sícari, Palavras de Uma Menina vai muito além de um blog: é o apêndice de minha alma de escritora. Amadores ou não, esses textos refletem quem sou e o que penso.

Lapsos de verdade no olhar


Descobri que gosto de lapsos de verdade que surgem como um flash no olhar das pessoas. E penso neles como poesia captada e comprimida. Como amor ou vergonha escondidos. Como dias mal vividos, ou talvez vividos demais. Sabe quando a penumbra vai, aos poucos, sendo iluminada e você vê que é bem possível que tome forma diante de sua observação? Sabe quando ao seu vago perscrutar uma alma vai se contornando a si mesma? Nem mesmo eu percebo a faísca que ...acende em mim quando, num momento desses, sinto um brilho assim nos olhos de alguém. Mas com certeza que senti nos olhos de cada um que amo e com certeza que essa tal fraqueza (conceito infundado) vem me despertando cada vez mais simpatia. Quando é que meus olhos dizem tantas coisas assim? Eles dizem? Eu abro suas portas para um viajante que, vez ou outra, quer conhecer minhas verdades? Verdades... Eu gosto de verdades. Até considerei que talvez gostasse de pessoas que escondiam (por amar esses olhares que revelam), mas percebi que na verdade gosto da iluminação do oculto. Gosto de sondar mistérios. E quantos são os mistérios que cabem dentro de um par de olhos?

VS.

Luz vs. escuridão. Dia vs. noite. Sol vs. lua. Amor vs. ódio.
Opostos.
Combate.
Luta.
Tudo isso existe?
Talvez, e apenas talvez, o vs. seja uma criação humana. A dualidade é óbvia e nos acompanha em todos os lugares. Uma espécie de polaridade. O feminino e o masculino de todas as coisas. Sim. Pólos. Mas pólos de um uno. Não há, e nem pode haver, luta. A nossa racionalidade tem essa terrível mania de criar guerra. Coroar vencedores. Honrar disputas. E isso se reflete em nossa vida cotidiana. O fracasso é intolerável na humanidade. Dói. Perder é cair, e por que cair? Vemos a vida de opostos. De bem e mal, certo e errado. Mas, ao contrário do que ensinam na escola, bem talvez não seja o extremo oposto de mal, e nem bom de mau. Talvez o lobo mal nem seja tão mau assim no fim das contas (ops!).
Embora poucas vezes pensemos no assunto, viver no negativo não é tão mal assim. É uma polaridade de nós, que existe em nós, e que devemos aceitar.
O sol e a lua não brigam por espaço. Eles dançam, numa vida eterna, em um ciclo irremediavelmente sem fim. A natureza se intercala entre dias de inverno e verão, outono e primavera. A flor nem sempre desabrocha e talvez por isso é tão perfumada e bela. O céu nem sempre é azul, e talvez pelas nuvens que às vezes escondem sua beleza, é que ele nos seja tão encantador.
A vida coexiste. Ela não precisa de luta. Ela tem em si a harmonia, e essa é a fonte de sua prosperidade.
Por que então o ser humano é incapaz de coexistir consigo? Por que sempre elegemos mocinhos e vilões para nossas tramas (e para nossas vidas)? Por que sempre rotulamos atitudes como certas e erradas, sem pensar em sua essência, seu sentimento, seu equilíbrio? Por que tem de haver, para nós, bem e mal? Anjos e demônios? Amigos e inimigos?
Negamo-nos a entender que, em nossa individualidade, somos parte de um todo. Vemo-nos como uma poeira no universo, ou sequer paramos para nos ver realmente. Acreditamos que somos uma criação póstuma, quando, na verdade, temos o poder de criar o que quisermos. Não conseguimos aceitar o quão poderosa é nossa mente, porque a escravizamos a ver a vida como sempre foi vista. Somos poeira estrelar, não é mesmo? Os átomos de nosso corpo não foram recriados (e Lavoisier riria com essa suposição), eles sempre pertenceram a algum lugar. Nosso cérebro não tem a capacidade de pensamento ao acaso (não seria incrível demais?). Nós somos deuses. Nós somos um. Somos energia, como as demais coisas a nossa volta. Temos nossas individualidades, mas precisamos entender que tudo está a nós ligado de maneira irremediável.
Vivemos em uma teia. Não uma teia de luz, nem uma teia de trevas. Mas uma teia em que ambas se intercalam. Em ciclo. Em harmonia. Assim como a natureza - que também faz parte de nós.




De agora


Eu queria ter um pouco mais dessa alegria inocente,
queria poder falar mais palavras bobas,
pensar aleatoriamente.
Mas é a cabeça que me prende.
São os fluxos incessantes,
são os sentimentos lamuriantes.
A desculpa é entender demais da vida.
A verdade é que não se entende nada.
Caso fosse sabido,
o coração não ficaria perdido.
O amor seria restabelecido.
Eu veria que a vida é simples e boa:
a gente a vê como entende.
Nosso pensamento é que ecoa.

A gente enxerga a beleza da vida


As pessoas dizem que a beleza da vida está nas pequenas coisas. Vou contar-lhes um segredo: essas pessoas são pequenas. A beleza da vida está onde quer que seja. A beleza da vida está naquilo de mais profundo e, também, de mais sublime. Está no universo, e na gota d'água. Mas, principalmente, dentro de nós. Sim, a beleza está dentro de nós. A gente enxerga a beleza da vida quando respira fundo e a alma sente prazer em fazer expandir os pulmões. E isso acontece na cidade, no campo, na chuva, na seca - não importa o ar, importam os pulmões. A gente enxerga a beleza da vida quando o olhar se ludibria ao contemplar o céu. E esse céu pode estar coberto de nuvens, pode estar azul como aquarela, ou pintado de crepúsculo - não importa o céu, importam os olhos. A gente enxerga a beleza da vida quando os ouvidos vibram com o som. Pode ser música, pode ser silêncio, pode ser voz - não importa o som, importam os ouvidos. A gente enxerga a beleza da vida quando sente a temperatura percorrer o corpo. Temperatura baixa ou alta, arrepiante ou transpirante - não importa a temperatura, importa sentir (o sol ou a neblina) na pele, de maneira única. A gente enxerga a beleza da vida quando sorri - e não importa o motivo, o importante é sorrir com a alma. A gente enxerga a beleza da vida, quando ama - e não importa que tipo de amor - importa que desperte, que aflore, que conquiste a nós mesmos com sentimentos unos e sensações inesquecíveis. A gente enxerga a beleza da vida quando passa a ser a beleza da vida. Quando tudo, tudo mesmo, das mais ínfimas às mais grandiosas sensações, passam a ser importantes, belas. Passam a fazer parte da nossa alegria.

A gente enxerga a beleza da vida. É a beleza da vida que importa ou a beleza do ser? No fim das contas, somos um. Somos o universo, temos o divino, temos tudo que nos desperta o prazer dentro de nós mesmos. A gente enxerga a beleza da vida, porque a gente é a beleza da vida.

Ostara e a Páscoa

Muitas das comemorações cristãs têm, em suas essências, aspectos marcantes do paganismo. As datas chegam a coincidir muitas vezes e eu, particularmente, acho isso o máximo! Antes que me perguntem: eu não tenho religião. Eu tenho uma mescla de crenças completamente malucas. É exatamente por isso que tenho tanta afeição por essas comemorações atualmente cristãs que têm um pézinho lá no paganismo.
Primeiramente, vamos estabelecer algumas coisas.
1. Cristianismo é um termo vulgarmente usado para denominar o catolicismo e suas posteriores vertentes (como o protestantismo), mas na verdade se refere a toda e qualquer ideologia que tenha como base Jesus Cristo e seus ensinamentos. Isso quer dizer que a umbanda e o candomblé, religiões que surgiram a partir do sincretismo do catolicismo e da cultura africana, é cristã (apesar de muitos dos cristãos afirmarem categoricamente que é "coisa do diabo");
2. Paganismo é um termo vulgarmente usado para denominar religiões politeístas ou, nos dias de hoje, tudo aquilo que não é cristianismo. No entanto, a palavra "pagão" vem do latim "paganus", ou seja, aquele que mora no "pagos", no campo, na natureza. Dessa forma, o paganismo é o culto e o respeito às forças da natureza;
3. O catolicismo conviveu durante muito tempo com o paganismo em ascenção e, como acontece em toda cultura e religião, agregou a
sua ideologia vários costumes pagãos.
Entende-se dessa maneira que, ao contrário do que muitos pensam, o paganismo e o cristianismo não são ideologias opostas. Uma pessoa pode facilmente crer em Jesus e seguir seus ensinamentos, enquanto reverencia às forças da natureza. Para encarar a questão levantada a seguir, deve-se desmistificar dos conceitos errôneos que nos são impostos e tentar enxargar as coisas de forma menos esteriotipada.
Antigamente, todas as pessoas eram pagãs. Os camponeses celebravam as mudanças das estações e construíam uma série de ritos e mitos acerca da natureza. O Equinócio de Primavera era, para eles, Ostara. É o momento do ano em que o Sol está diretamente em cima do Equador, fazendo com que o dia e a noite tenham a mesma duração. Ostara é basicamente um ritual solar, sinalizando na agricultura o tempo em que as sementes são plantadas e começam seu processo de crescimento. Ou seja, simboliza o início da fertilidade. O embriãozinho que vai tomando vida.
Ostara tinha como característica em sua tradição a decoração de ovos. Os ovos simbolizavam a fertilidade da natureza e, em conseguinte, de seus deuses criadores. Além disso, era comum as pessoas esconderem esses ovos, uma vez que encontrá-los simbolizava que a pessoa alcançaria suas metas. (Alguma semelhança com a Páscoa?)
Não para por aí! Os coelhos eram tidos como um dos maiores símbolos de fertilidade do paganismo, uma vez que levavam 28 dias (um ciclo completo de lunação) para gerar e dar a luz a seus filhotes. E, cá entre nós, como eles têm filhotes! Acreditava-se naquela época que um coelho havia pedido algum favor à deusa e, em troca, botou um ovo e decorou-o, presenteando-a. Essa deusa era Ostara ou Eostre, divindade saxã que simbolizava a primavera, a ressurreição e o renascimento (outra grande coincidência, não é mesmo?). Segundo a lenda, ela teria ficado tão feliz com o presente que acabou por decidir que toda a humanidade deveria recebê-lo. Assim, o coelho passou a viajar todo o mundo no equinócio de primavera, distribuindo a alegria e o amor da fertilidade e do renascimento da deusa Ostara.
Obs: trata-se da primavera porque estamos falando da Europa, no hemisfério norte. Nessa época, os nossos índios aqui na América Latina também deviam estar comemorando de algum jeito muito especial a chegada do outono.

Um parágrafo sobre o mundo

Esse mundo me trucida e me desgasta. Sua beleza me parece deprimente, já que é tão pouco admirada; sua essência me perturba, por ser ela mesma tão perturbada. Arrebenta-me, esse mundo, pois que todos parecem rebentar em explosões e explodir em rebentos - enquanto rebento eu mesma em lágrimas que nunca escapam aos olhos e explodo em revoltas contidas. Não é que eu não o entenda - é que o entendo em demasia. Entendo-o em seu âmago e conheço todas as suas peripécias. E é esse saber que me causa transtornos: vejo com tanta nitidez as correntes que aos outros são invisíveis! Quero desprender-me dos grilhões que me esmagam os ossos, mas quanto mais luto contra eles, mais o seu ferro gélido comprime meus pulsos. Sinto-me sufocada por esse mundo, como se o ar me fosse impróprio aos pulmões. Eu grito, esperneio e desespero. Eu suplico para ver-me liberta desse fardo, para ver o fardo transformar-se em bálsamo. No entanto, quanto mais rogo clemência, mais a realidade parece aprisionar-me a alma, que tanto anseia pela liberdade. Cortaram-me as asas, mas ainda tenho em minha essência o impulso de voar. Crescerão um dia as asas - as minhas, novamente, e as do mundo, incrivelmente?

Grande Pequenez


Apago e deixo de lado o que podia ser grande como um monte. Esqueço, porque não quero a grandeza. Quero o encanto das belas nostalgias, o encanto do pequeno e ínfimo, que faz a diferença que nada de maior nunca pôde. Não quero ser como o gigante que ataca, mas como o anão ágil que recua e evita, até que o outro tropece em seu próprio pé. Quero ser como fada delicada cuja pequenez da fantasia traz o sorriso à criança e a perplexidade ao cético adulto, e cuja magia faz nascer no seio de qualquer alma amor resplandecente. Sim, eu quero ser aquele pequeno brilho que resplandece. Eu não quero ser sol, mas quero ser lua: refletindo e emergindo na noite, como uma guardiã noturna. Quero ser o pequeno botão de flor, e não a grande e voluptuosa rosa vermelha florescida: pois que quero ser delicada e frágil, ainda que cheia de espinhos para me proteger, pois que quero ter sempre a capacidade de desabrochar em sentimentos unos.
E é dessa pequenez que me restituo oceano: e é esta alma pequena que faz-se eterna e infinita. Que escreve, e escrevendo perpetua. Eis aqui a minha aurora, o meu florescer. Eis aqui como me banho de raios dourados, como me inundo de alegria. Eis aqui como faço o meu ser ser mais que um: como viro coletivo e, virando-o, faço-o diferente. Sim, diferente. Eu quero mudar. Eu quero brilhar. E que seja uma pequena mudança: uma palavra, um sorriso. Mas que mude. Que seja um pequeno brilho: um amor, um olhar. Mas que brilhe e que ilumine. E que meus passos pequenos e luminosos possam guiar outros pela escuridão que eu mesma enfrentei, como se fossem vaga-lumes ensandecidos de paixão. Paixão pela vida que surgiu antes de rasgar o ventre de minha mãe, que surgiu antes de meus olhos presenciarem a luz do dia. Paixão pela vida: essa vida maior que é mais do que a existência.
Minha vivência é feita de paixão e é essa a engenhosa grandeza de minh'alma.